Shimizu Aruko [Brufan]
— Tu queres que eu entre
aonde?!
— No torneio, obviamente.
Aruko fitou-o em choque, esperando que Yori começasse a rir e desmentisse a proposta que acabara de fazer. Para seu desapontamento, a sua expressão mantinha-se longe de se alterar. — Eu pensava que tínhamos vindo para aqui para fugirmos dos tipos psicóticos e não para chamar as atenções.
— Bem, eu sei que achas que és fantástica, mas duvido que eles se dessem ao trabalho de viajarem até aqui sem terem a certeza absoluta que valia a pena. E em segundo lugar, podes aproveitar para treinar, não?
— Mas é em equipas!
— E?
— Eu não conheço
ninguém daqui.
O homem revirou os olhos, erguendo a folha de inscrição no ar. — E o problema é…?
Expirou, derrotada, e agarrou no pedaço de papel que ele abanava à frente dos seus olhos.
Isto de ser coagida a entrar em campeonatos vai ser a minha morte. Rabiscou o nome depois de preencher todos os dados e estendeu-lhe de novo a folha. Recebeu um sorriso descrente.
— Já és velha o suficiente para fazer isto sozinha, não achas?
Abriu a boca em protesto, antes de o fuzilar com o olhar.
Grande lata! Passou por ele, em direcção ao local de entrega das inscrições e olhou para trás por cima do ombro, vendo-o, de braços cruzados, encostado à parede.
Filho da-Sentiu-se a andar para trás quando embateu contra alguém, o seu olhar desviando-se de imediato do moreno.
— Desculpa — disse automaticamente, antes de os seus olhos decifrarem a pessoa à sua frente.
— Estás desculpada.
Aruko ergueu uma sobrancelha. O rapaz de cabelo branco tinha o gorro negro enfiado de forma a quase cobrir-lhe os olhos vermelhos, que a fitavam sem qualquer tipo de emoção.
— Costuma-se dizer desculpa.
— Tu já o disseste.
A morena pestanejou, desorientada.
O que raio?— Também te vais inscrever? — perguntou ele, acenando em direcção à folha segura na mão dela.
— Ahm… sim.
— Prepara-te para perder então. —
Ok, este miúdo está a acabar-me com a paciência.— Claro, porque tu vais dar cabo de mim. — retorquiu acidamente. Ele não pareceu incomodado, limitando-se a abanar a cabeça, em negação.
— Porque estás magoada, e o resto do pessoal que vem para cá está em óptimas condições.
Deu um passo atrás. — Como é que-
— Fizeste uma cara estranha quando te inclinaste pró lado esquerdo. Provavelmente por causa das dores.
Teve uma súbita e inexplicável vontade de rir. — Tens a certeza que é uma boa ideia entrares nisto?
O olhar dele focou-se na ponta da manga da camisola verde-escura repleta de remendos, quase alheado à presença dela. — Pelos vistos inscrevi-me.
— Pelos vistos?
Viu-o encolher os ombros em resposta. Estava prestes a acenar-lhe em despedida e continuar o seu percurso, quando a cabeça dele se ergueu subitamente, o gorro descendo com o movimento. — Queres lutar?
A kunoichi olhou-o, perplexa — O quê?
— Perguntei. Se. Queres. Lutar. — repetiu, pausando entre cada palavra para ter a certeza que ela o entendia. Tinha uma sensação que era capaz de o decapitar se passasse muito tempo com ele.
— Adoraria, mas tenho uma inscrição para fazer.
— Eu espero. — ofereceu-se, ingenuidade nos seus olhos.
— Ahm… Mas-
— Eu trato disso.
Aruko voltou-se para trás, dando de caras com Yori, cujo sorriso convencido se mantinha perfeitamente delineado nos seus lábios.
— Óptimo. — murmurou entre dentes, passando-lhe o papel. Podia jurar que o sorriso dele aumentara quando se começou a afastar da dupla.
— Vamos?
Fitou o rapaz à sua frente, antes de suspirar. — Mostra o caminho.
Com um entusiasmo preocupante, viu-o começar a andar por entre os prédios em direcção a sabia lá Deus onde. Seguiu-o com facilidade, aproveitando a oportunidade para o observar. Devia ser no mínimo uns três anos mais novo que ela, a sua altura, para variar, era inferior à dela, e as roupas, além de gastas, eram demasiado grandes para ele.
Em segunda mão. Um irmão mais velho? Possivelmente. O cabelo branco esvoaçava com os pequenos saltos entusiastas que intercalavam o seu passo apressado. Sorriu.
Estranho.— Como é que te chamas? — perguntou, fazendo-o fitá-la por cima do ombro.
— Mo.
Mo? — Aruko. — apresentou-se, recebendo um aceno de desdém. Revirou os olhos.
Para quê ser socialmente correcto? Estava tão ocupada em analisá-lo, que por pouco não chocou de novo contra ele quando o shinobi parou de repente. O descampado estava localizado nas traseiras de umas casas, apenas decorado com meia dúzia de árvores despidas. Franziu as sobrancelhas.
Péssimo campo de batalha.Mo deu mais uma dúzia de passos e virou-se de frente para ela, a expressão de curiosidade infantil tão clara nos seus traços, que Aruko duvidou se ele não era ainda mais novo do que ela antecipara.
— Pronta?
A morena sorriu, desembainhando uma kunai. — Nasci pronta.
Sem esperar que ele se preparasse, concentrou chakra nos pés e cortou a distância que existia entre eles. A arma trespassou-lhe o estômago, antes da imagem do rapaz se transformar num tronco.
Como é que ele-O ar foi trespassado por três kunais atiradas na sua direcção, a quem ela escapou facilmente com um salto ágil para trás. Assim que os seus pés tocaram no solo, girou sobre si e, concentrando chakra na mão, desferiu um soco no rosto do gennin atrás de si, que se voltou a revelar um pedaço de madeira.
Os seus olhos varreram o local, para o encontrar sentado no topo de uma árvore, as suas pernas balançando a um ritmo regular.
— Vais lutar ou fugir?
— Sabias que a vespa mandarina é um dos insectos mais perigosos do planeta?
Fitou-o, perplexa — O quê?!
Os lábios dele esboçaram um sorriso que a fez arrepiar-se. — Hoje não vai chover.
Num movimento rápido, Mo atirou-se sobre ela, levando-a a rodear os braços com chakra e a interceptar o pontapé. Agarrando-lhe firmemente na perna, atirou-o para o outro lado do campo e empunhou uma kunai. O rapaz concentrou chakra nos pés, o ar passando por si à medida que voava, e, com uma habilidade estonteante, controlou o impacto com o solo, conseguindo manter-se de pé. Assim que levantou o olhar, o rosto da morena encontrava-se a centímetros do seu. Numa fracção de segundo, impulsionou o corpo para trás, desviando-se da lâmina. A rapariga sorriu. Elevou o pé ao nível da cabeça do adversário, obrigando-o a agachar-se, e num movimento rápido, realizou um chute rasteiro.
És meu!Para seu choque, assim que se agachou, Mo atirou-se para trás, os braços flectidos ao lado da cabeça que, assim que os seus dedos roçaram o solo, se estenderam, permitindo-lhe fazer o pino e aterrar suavemente no chão.
Falhei?!— É a minha vez. — avisou com um sorriso, as suas mãos formando, num piscar de olhos, um conjunto de selos que ela não reconhecia.
Uma brisa envolveu-a, assim como umas pequenas folhas, à medida que ela se afastava do rapaz. Parou longe dele, esperando pelo resultado que nunca veio.
Parece que não sou a única a falhar. As suas mãos formaram em segundos os selos necessários à sua próxima técnica, e inspirou profundamente.
Suiton: Mizurappa! Com o chakra concentrado no peito, expeliu uma enorme quantidade de água em direcção ao alvo, seguindo-o à medida que ele agilmente escapava. Viu-o aproximar-se do muro de uma das casas e juntou de novo as mãos.
Cessou o fluxo de água e usando o Shunshin no Jutsu, alcançou o rapaz. Com uma pontaria certeira, desferiu um murro que lhe atingiu o rosto e o fez cair para trás. A camisola adquiriu mais um pequeno rasgão para a sua colecção quando o rapaz atingiu o solo.
Os olhos vermelhos fixaram-se nos seus, um sorriso brotando dos seus lábios. Subitamente, mãos surgiram do solo, fazendo-a soltar para trás de susto.
— Aruko!
Voltou-se num ápice, a voz atravessando-lhe a mente como fogo. A percepção de um vulto ao seu lado trouxe-a de volta à realidade e Mo, com um pontapé carregado de chakra, atingiu-lhe a região lombar. A dor percorreu cada nervo do seu corpo, fazendo a sua visão escurecer momentaneamente.
O impacto de um novo soco no lado direito da cara, aliado ao do golpe anterior, fez com que ela se desequilibrasse e por pouco não caísse ao chão. Apesar dos tratamentos de Yori, o local onde fora esfaqueada na semana anterior ainda estava sensível, e o pontapé de Mo parecia ter sido dez vezes mais poderoso do que o habitual.
— Devias ter pensado em proteger essa área. — comentou monocórdico, como quem conversa sobre o tempo.
— Ele tem razão, sabias? — a voz delicada que já conhecia de cor chegou-lhe aos ouvidos, aumentando o seu grau de irritação.
— Não vês que estou ocupada? — retrucou, a sua voz fraca pela dor. Viu o rapaz à sua frente piscar os olhos, surpreendido.
A rapariga de cabelo negro limitou-se a revirar os olhos e a ajeitar-se no ramo da árvore. Mo olhou para o seu lado esquerdo, e sussurrou algo para o ar, fazendo-a erguer uma sobrancelha, confusa.
Com quem é que ele está a falar? Olhou à sua volta, os poucos rastos de água que perduravam do seu próprio ataque a escaparem pelo solo. Viu uns altos reservatórios de água repousados no telhado das casas, a sua mente delineando rapidamente uma estratégia.
A imediata percepção do som do ar a ser outra vez cortado pelo movimento do rapaz, deu-lhe tempo para proteger fracamente o estômago antes de sentir o pé carregado com chakra embater no seu corpo. Sentiu-se a voar para trás em direcção à parede de pedra da casa, o cabelo castanho perdendo a pouca organização que ainda possuía. As suas costas embateram com força contra a superfície gelada, um arrepio de dor percorrendo-a.
Sem desperdiçar tempo, focou chakra na sola dos pés e subiu a parede. Assim que ficou ao nível do reservatório, os seus olhos percorreram a superfície de madeira, facilmente encontrando o que pretendia. Pôde ouvir o som do metal a ser retirado do seu local de descanso e quase conseguia sentir Mo a apontar as kunais na sua direcção. As armas cortaram o murmurinho da população ao longe, levando-a a fechar os olhos.
Cinco. Não, quatro. Dois graus para a esquerda. Deixou o seu corpo cair em direcção ao chão, uma das lâminas perfurando-lhe superficialmente o ombro direito. O embate desviou em milímetros a trajectória da kunai. O ombro enviou um choque de dor em protesto. A morena sorriu.
Assim que os seus pés tocaram o chão, a arma fixou-se na racha mais proeminente do reservatório, levando à vitória da pressão da água sobre a madeira que se limitou a despedaçar-se sem luta. A água gelada caiu-lhe sobre o corpo, ensopando-lhe as roupas e lambendo cada pedaço de pele disponível. O sangue do corte no ombro foi arrastado pela força das gotas, oferecendo uma nova cor ao tecido rasgado.
— Não o partiste tu para não gastares ainda mais chakra. Estás assim tão cansada? — deduziu o rapaz, o seu tom desprovido de emoção. — Mas mesmo assim, não me vais conseguir derrotar.
Aruko sorriu sem rasgo de humor, os seus olhos ainda fechados.
Adoro quando me subestimam. Virou-se na direcção do rapaz, permitindo finalmente que a luz incidisse sobre as orbes castanhas. Não se surpreendeu quando encontrou Emi à frente do rapaz de cabelo branco. Os seus olhos cor de mel gritavam de dor, os seus lábios entreabertos num grito mudo, o sangue embebendo cada pedaço de tecido que beijava.
Sentiu o estômago subir-lhe à garganta. Com chakra concentrado nos pés e na mão direita, iniciou uma corrida veloz em direcção a ela. Realizou os selos com uma enorme familiaridade, apertando nesse mesmo instante, o punho da espada formada pelas gotículas de água que cobriam o seu corpo. Num golpe certeiro, enterrou a espada no abdómen da loira, antes de a retirar de novo do corpo dela e dar um mortal por cima da ex-colega e do rapaz.
Rodando a espada na mão, reajustou-a e enterrou-a firmemente no tronco da árvore à sua esquerda. Os seus olhos mantinham-se fixos na paisagem à sua frente quando deixou que a espada se dissolvesse.
O som do clone a desaparecer atrás de si, seguiu-se pelo som à sua esquerda. Mo reaparecia no seu ângulo de visão, a capa rasgada a cair no chão. O rosto do rapaz apresentava um golpe fino provocado pela espada, a sua perfeita camuflagem com a árvore destruída com a acção da Mizu Kuri no Yaiba.
— Sabias que ele era um clone.
— Serias estúpido se te deixasses tão à minha mercê, mesmo com o genjutsu.
Viu-o inclinar a cabeça — Não tinha sido mais fácil quebrares a ilusão?
— O meu genjutsu é péssimo. Mesmo que tentasse, provavelmente não ia conseguir quebrá-lo, já que deves compensar a tua pouca força física com o aperfeiçoamento disso.
Num flash, Mo estava à sua frente, o gorro torto na sua cabeça. Esboçou um sorriso, ao que ela retribuiu de imediato.
— Sabes, Mo, foi óptimo lutar contigo. — admitiu, as suas mãos agarrando-lhe no tecido negro e alinhando o gorro da mesma forma em que este estava antes do combate. O rapaz fitou-a, a sua expressão indicando que ele estava a pensar em mais do que ela podia adivinhar.
Cruzou os braços antes de lhe sorrir uma última vez e lhe virar as costas, caminhando de volta para o local onde deixara Yori.
— Hoje não vai chover. — repetiu ele, um tom de felicidade na voz
Aruko riu divertida antes de olhar por cima do ombro. — Pelos vistos não.