Lobisomem
O quarto mal-iluminado e até um momento atrás silencioso encheu-se da fresca brisa noturna, o homem largou-se ao chão em espasmos de ar e dor como se tivesse acabado de sair do ventre materno, estava nu e com frio tal como com fome e sede. Acalmou-se por um segundo para ganhar fôlego e sentou-se no chão frio. Sentia uma dor de cabeça colossal, ergueu os cabelos que se emaranhavam na face para trás e sutilmente levantou-se como se nada tivesse acontecido, andou alguns passos e cambaleou indo apoiar-se na estante, levantou os olhos pesados em seu quarto, o luxuoso quarto. Sua cama a muito já não era frequentada pelo dono, um mero desperdício de seus lençóis de seda e travesseiros de plumas.
O local era imenso, não era para menos, o conde Aldasir era um dos mais ricos da região, a prova disto era o grande palácio o qual vivia e a arrogante expressão em sua face.
O homem se recompôs e retomou seu equilíbrio e reerguendo sua face com todo o orgulho de um conde. Novamente pôs-se a andar, deu alguns passos singelos até o guarda-roupa (Que era um pequeno cômodo ligado ao quarto) e pegou o primeiro robe que achara e com ele cobriu seu corpo despido.
Lá fora a noite tão escura quanto nunca se tornava avermelhada com o sangue das crianças, dezenas e talvez centenas de homens com porretes e lágrimas nas mãos corriam furiosos e magoados rumo à maior residência da cidade. Policiais esqueceram seus cargos e foras-da-lei largaram seus pecados para unirem-se aquela marcha justiceira.
Eles carregavam tochas, porretes, algumas poucas armas de fogo e facões, gritavam “morte ao matador” ao mesmo tempo em que marchavam cheios de coragem no peito na escuridão daquela disfarçada lua cheia.
Aldasir andou até a janela aberta e olhou para o céu coberto por nuvens, já sabia o que aconteceria, tinha plena consciência do que fizera, esperava ansioso pela sua morte.
Na sala de estar, próxima ao hall de entrada, abriu o armário e tirou o wiskey preferido assim como o pequenino copo de cristal o qual adorava. Tinha muito bom gosto e ainda mais orgulho dos seus bens, mas, até mesmo um homem afogado na soberba e na luxúria sente o peso dos pecados, tais pensamentos invadiam a mente do sereno homem e refletiam-se apenas na sua barba mal-feita, pois os olhos dignos de um conde nunca, excepcionalmente nunca, deveriam perder a alteza.
Parou frente à mesa e mesmo em pé abriu a garrafa e encheu o copo com o liquido avermelhado. Levou-o à boca virando o copo e contorcendo levemente a face novamente encheu o recipiente.
Os homens ao relento finalmente chegaram ao local, estavam frente a imensos portões negros que guardavam o mais belo dos jardins de Berlim, todos pararam calados por um segundo afim de descobrir como passar, a fúria e o instinto assassino eram meros combustíveis para aqueles ali presentes, as tochas no alto de seus braços simbolizavam o exorcismo daquela noite, os facões em suas mãos representavam o sangue derramado e a dor em suas almas era o motivo para sua crueldade.
Ao longe, do outro lado do jardim, um homem surgiu através da luxuosa porta da mansão, ao ver aquele infame morador todos em súbito ergueram as vozes e em gritos de guerra esmurraram, empurraram e chutaram os portões com toda a sua força, o ar noturno encha-se com os urros de fúria e as pragas jogadas a Aldesir, ele observava a tudo com o habitual olhar nobre de um conde, deu mais alguns passos a frente até ficar na metade do caminho entre os vingativos moradores de Berlim e sua gigantesca casa, algo em torno de 5 metros de cada.
Ele ajoelhou-se no sedoso gramado e abriu os braços olhando para o céu.
“Deus! Perdoai o que acontecerá esta noite...”
O portão rangia ameaçadoramente com a pressão de dezenas de homens empurrando-o e esmurrando-o ao mesmo tempo, e gritavam em desgosto. “Mostro!”, “Demônio!” e outros gritavam “Devolva meus filhos!”, “pagará por levar minha mulher!”
E ainda ajoelhado, o Conde profetizava sua prece de perdão.
“Daqui a pouco tempo não terei mais responsabilidade por meus atos, assim como todas as outras noites, Deus, por favor...
O grande cadeado que prendia o portão cedia aos poucos e assim como as dobradiças, rompia-se à medida que era forçado pelos invasores. Um policial no meio da multidão ainda empurrando o portão tirou do bolso da cintura uma pistola e atirou no homem ajoelhado no jardim a sua frente.
Aldesir foi impulsionado para trás com a bala em seu Tórax, mas como um Conde não demonstrou dor alguma, apenas abriu os braços novamente e continuou sua prece de perdão.
“Deus... não, Pai! Permita que eu morra antes de não ser mais seu filho”
Uma lágrima caiu dos olhos do conde e o portão cedeu à multidão, todos em unisom entraram em um grito de guerra erguendo seus facões e porretes.
Mas, assim como horas atrás, a lua cheia apareceu entre as nuvens e rapidamente transformou a escuridão daquela noite nublada no maior terror de Berlim.
O homem que outrora fora Fera novamente tornou-se o amaldiçoado e ali, naquele local, os gritos dos vingadores novamente foram ouvidos, mas, desta vez clamando perdão e misericórdia, porém, não durou muito, pois segundos depois as dezenas de vozes calaram-se e apenas um uivo saciado foi o que reinou naquela noite em Berlim.